{"id":58,"date":"2015-10-07T13:38:54","date_gmt":"2015-10-07T13:38:54","guid":{"rendered":"http:\/\/www.vigilanterodoviario.com.br\/serie\/?page_id=58"},"modified":"2015-10-07T13:38:54","modified_gmt":"2015-10-07T13:38:54","slug":"a-historia-da-minha-vida","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/www.vigilanterodoviario.com.br\/retro\/a-historia-da-minha-vida\/","title":{"rendered":"A Hist\u00f3ria da Minha Vida"},"content":{"rendered":"<p><strong><em>Por Ary Fernandes<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A obsess\u00e3o pela id\u00e9ia superou os obst\u00e1culos, sem saber criou o maior fen\u00f4meno da televis\u00e3o brasileira. <\/p>\n<p>Eu, quando crian\u00e7a, via os seriados no cinema, devorava gibis e ficava pensando porque n\u00e3o existia um seriado brasileiro, um personagem genuinamente brasileiro. Os her\u00f3is eram todos norte-americanos, tipo Flash Gordon, Tarzan, Capit\u00e3o Am\u00e9rica, O Sombra, Fantasma, etc.<\/p>\n<p>Aquilo j\u00e1 me incomodava, mas nem imaginava que um dia eu faria um seriado brasileiro. Foi no ano de 1959, quando eu dirigia comerciais j\u00e1 rec\u00e9m sa\u00eddo dos Est\u00fadios da Maristela,que a id\u00e9ia de criar meu personagem come\u00e7ou a tomar forma.<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria em quadrinho existia um her\u00f3i que andava de motocicleta, um tipo de cowboy do asfalto chamado O Vingador. Eu achava rid\u00edculo, um cowboy de motocicleta. <\/p>\n<p>Um dia, andando pela rua, vi um guarda rodovi\u00e1rio passar de motocicleta. Me informei e descobri que n\u00e3o era um guarda e sim um Inspetor Rodovi\u00e1rio (a\u00ed veio a ideia de criar o Inspetor Carlos). Come\u00e7ou a vir na minha mente a ideia de um her\u00f3i brasileiro, um patrulheiro, mas sozinho n\u00e3o ia ficar bom, ent\u00e3o pensei num cachorro, seu companheiro, um cachorro que andaria na moto, uma novidade, coisa in\u00e9dita, que eu nunca tinha visto.<\/p>\n<p>Passados alguns dias, a hist\u00f3ria j\u00e1 come\u00e7ava a fervilhar na minha cabe\u00e7a. Relatei-a ao Pal\u00e1cios (meu amigo e s\u00f3cio), que gostou da minha ideia e conjeturamos sobre o assunto. Lembrei ent\u00e3o do M\u00e1rio Costa, amigo que outrora  havia sido propriet\u00e1rio de uma empresa de transportes, a Estrela do Sul.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca ele tinha uma loja de autope\u00e7as embaixo de nosso escrit\u00f3rio. Fui falar com M\u00e1rio e, tomando um cafezinho, relatei minha ideia. Ele ficou empolgado e me disse que conhecia pessoas na For\u00e7a P\u00fablica, tinha contatos e que poderia ligar e propor uma reuni\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu disse: calma, \u00e9 apenas uma ideia, n\u00e3o temos dinheiro e a coisa acabou ficando assim. Eu fiquei preocupado, com medo que ele falasse com algu\u00e9m l\u00e1 na pol\u00edcia, eu n\u00e3o estava seguro, da ideia precisava ser maturada.<\/p>\n<p>No dia seguinte o M\u00e1rio me procurou e disse que havia falado com seu amigo, Altino Fernandes, que era Capit\u00e3o da For\u00e7a P\u00fablica e este j\u00e1 havia feito contato com seu amigo, Fl\u00e1vio Capeletti, subcomandante da Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria e que havia adorado a ideia. <\/p>\n<p>M\u00e1rio me disse que j\u00e1 estava agendada uma reuni\u00e3o com o Capeletti na Rua Riachuelo, onde ficava a Secretaria de Via\u00e7\u00e3o e Obras P\u00fablicas e tamb\u00e9m o escrit\u00f3rio da Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o me intimidei, mas fui pensando no caminho: \u201cComo vou sair dessa!\u201d Fui at\u00e9 l\u00e1 conversar com ele e come\u00e7amos bem, pois descobri que ele era meu vizinho em Santana. Expliquei a ideia, do patrulheiro com o cachorro, salvando as pessoas de bandidos, o cachorro andando na moto, etc., e relatei tamb\u00e9m o que seria o  piloto da s\u00e9rie, toda na minha cabe\u00e7a, o Diamante Gran Mogol, uma hist\u00f3ria  policial que envolvia o roubo de um grande diamante, o maior do mundo.<\/p>\n<p>Ele se disp\u00f4s a ajudar no que fosse poss\u00edvel, mas os recursos da Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria na \u00e9poca eram  prec\u00e1rios, haja visto que a frota da rodovi\u00e1ria era composta de alguns jeeps e dois Ford, um 1949 e 1950.<\/p>\n<p>Um pequeno par\u00eantese: tanto o Capeletti quanto o Altino acabaram se tornando meus amigos.<\/p>\n<p>Mais tarde, durante o seriado, Capeletti me confessou que quando eu fui falar com ele, existiam duas hip\u00f3teses: uma, a de eu ser louco e outra, a de eu estar anos \u00e0 frente de minha \u00e9poca, que eu seria o respons\u00e1vel por realizar uma obra que ficaria marcada para sempre no Brasil.<\/p>\n<p>Bem, no mesmo dia relatei o que havia acontecido ao Pal\u00e1cios e ele achou que eu estava louco, acabou me dando uma bronca. A impress\u00e3o que dava \u00e9 que o Pal\u00e1cios ainda n\u00e3o havia entrado no clima da id\u00e9ia, n\u00e3o tinha comprado a ideia. Mas no fundo ele n\u00e3o estava errado, eu estava sonhando com uma coisa muito al\u00e9m da nossa realidade, das nossas posses.<\/p>\n<p>Na Rua Pedroso, havia um amigo, um judeu, Jacob Mathor, um homem de posses, que tinha um est\u00fadio que n\u00f3s j\u00e1 us\u00e1vamos para fazer comerciais. Contei a ele a ideia, tudo que havia acontecido com  o pessoal da pol\u00edcia, disse que estava chateado pelo fato de, de certa forma ter discutido com Pal\u00e1cios, mas aquela ideia n\u00e3o sa\u00eda da minha cabe\u00e7a, estava preocupado.<\/p>\n<p>Aquilo estava come\u00e7ando a virar uma obsess\u00e3o. Jacob ouviu tudo e ao final me disse: \u201cEu colaboro com quatro latas de mil p\u00e9s de negativo 35 mm, cedo meu carro e meu est\u00fadio para voc\u00ea usar como precisar\u201d. E ele tinha um Chrysler, um carro de luxo na \u00e9poca. Os est\u00fadios se chamavam Santa M\u00f4nica, em homenagem \u00e0 sua filha. Na verdade, Jacob ficou comovido com minha empolga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Voltei a falar com Pal\u00e1cios. Sugeri ao Pal\u00e1cios que convers\u00e1ssemos com os t\u00e9cnicos da Maristela que ainda estavam desempregados e propus\u00e9ssemos uma parceria, que todos pudessem trabalhar graciosamente para a realiza\u00e7\u00e3o do piloto. <\/p>\n<p>T\u00ednhamos uma c\u00e2mera Arriflex 35 mm que hav\u00edamos comprado quando sa\u00edmos da Maristela. Com essa c\u00e2mera faz\u00edamos os comerciais que davam nosso sustento naquele momento. Considerando que cada lata de negativo tem doze minutos, eu tinha quarenta e oito minutos de filmagem, para um epis\u00f3dio de 20 minutos, ou seja, n\u00e3o podia errar muito. <\/p>\n<p>Sai a campo para procurar os t\u00e9cnicos e at\u00e9 meu pai se disp\u00f4s a ajudar, depois, durante as filmagens, ele comprava p\u00e3o, frios, lingui\u00e7as e fazia lanches para a equipe. O H\u00e9lio Menezes, j\u00e1 falecido, era dono de uma ag\u00eancia de figurantes, tamb\u00e9m veio ajudar.<\/p>\n<p>Os atores eram quase todos amadores, figurantes. H\u00e9lio, que era ga\u00facho, um dia fez um arroz a carreteiro para a equipe, num fog\u00e3o improvisado nas loca\u00e7\u00f5es. Quando est\u00e1vamos no nosso est\u00fadio, ped\u00edamos emprestado pratos e talheres para um bar que  ficava ao lado. Vieram tamb\u00e9m o Eliseu Fernandes, fot\u00f3grafo, Mazinha (Osvaldo Leonel), eletricista, Luizinho, montador e amigos da Maristela que j\u00e1 trabalhavam conosco na montagem dos comerciais.<br \/>\nEu j\u00e1 havia escrito a hist\u00f3ria e depois fiz um roteiro do primeiro epis\u00f3dio, o piloto, que seria, definitivamente, O Diamante gran mogol. Para mim n\u00e3o foi dif\u00edcil fazer isso, pois eu sempre tive facilidade em escrever. <\/p>\n<p>Conversei com o pessoal da pol\u00edcia e pedi quatro guardas permanentes para ficarem direto comigo durante as filmagens. Precis\u00e1vamos da orienta\u00e7\u00e3o deles nas estradas, \u00e0s vezes nos distra\u00edamos e invad\u00edamos a estrada, um perigo, esse pessoal da pol\u00edcia era absolutamente necess\u00e1rio, eles tomavam conta da gente, eles ficavam desviando o tr\u00e2nsito onde est\u00e1vamos filmando.<\/p>\n<p>Eram eles: Benedito Lupi, Mistrenel, Almir Castrioto, \u00c1lvaro Motta (o \u00fanico vivo, encontrei com ele recentemente).  Esses quatro come\u00e7aram comigo, me ajudaram muito e eu gostava de todos, mas confesso que Lupi era o meu preferido, um grande cara, bebia demais, morreu cedo, mas era um grande cara, deixou saudades.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Ary Fernandes A obsess\u00e3o pela id\u00e9ia superou os obst\u00e1culos, sem saber criou o maior fen\u00f4meno da televis\u00e3o brasileira. 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